Subsidio Teológico: Evangelhos e Atos



MATEUS

AUTOR E OBJETO DO EVANGELHO Com notável unanimidade, a tradição da Igreja tem atribuído desde o séc. II a composição deste Evangelho a Mateus, o publicano (9.9; 10.3), chamado também de Levi, filho de Alfeu (Mc 2.14; Lc 5.27), o coletor de impostos a quem Jesus chamou e uniu ao grupo dos seus discípulos (10.1-4; Mc 3.13-19; Lc 6.13-16). Tem-se afirmado que Mateus (Mt) é por excelência o Evangelho da Igreja. Escrito para instruir acerca de Jesus Cristo o novo povo de Deus, apresenta-se diante do leitor como um texto de estrutura basicamente didática.  CARACTERíSTICAS TEOLóGICAS E LITERáRIAS É evidente que Mateus está mais interessado em coligir e apresentar na sua obra o pensamento de Jesus do que em dar-lhe um conteúdo puramente narrativo. Conseqüência desse enfoque é o fato de que o evangelista nos transmitiu um quadro enriquecedor da cristologia da Igreja primitiva, quadro que poderia ser resumido em quatro pontos fundamentais: (1) Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, é o Messias esperado pelo povo judeu. (2) Em Jesus, descendente de Davi (1.6; 20.30-31; 21.9), cumprem-se as profecias messiânicas do Antigo Testamento. (3) O povo judeu não chegou a compreender cabalmente a categoria espiritual nem a profundidade da obra realizada por Jesus em obediência perfeita à vontade de Deus. (4) A rejeição de Jesus, o Cristo, por parte do Judaísmo palestino, projetou a mensagem evangélica ao mundo gentio, revelando desse modo o seu sentido universal. Um traço característico deste primeiro Evangelho é a sua contínua referência ao Antigo Testamento, com o objetivo de demonstrar que as Escrituras têm o seu pleno cumprimento em Jesus (1.22-23; 2.15,17-18,23; 4.14-16; 8.17; 12.17-21; 13.35; 21.4-5; 27.9-10). Mateus, mais do que Marcos e Lucas, faz citações abundantes da Lei e dos Profetas (5.17-18; 7.12; 11.13; 22.40) e, com freqüência, da fé em tradições e práticas religiosas dos judeus vigentes na época (cf., entre outras, 15.2; 23.5,16-23). Mateus também nos apresenta Jesus como o intérprete infalível das Escrituras. Ele é o Mestre sem igual, que a partir da verdade e da autenticidade descobre a falsidade de certas atitudes humanas aparentemente piedosas, mas, na realidade, cheias de avidez para receber o aplauso público (6.1). Recordemos a crítica de Jesus quanto a dar esmolas a toque de trombeta (6.2-4), a respeito da vaidosa ostentação das orações feitas nos cantos das praças (6.5-8; 23.14) e a hipocrisia dos jejuns praticados com o propósito primordial de impressionar o povo (6.16-18). Especialmente interessante é o tratamento que Mateus dá ao aspecto pedagógico da atividade de Jesus. Enquanto Marcos e Lucas associam as palavras do Senhor à ocasião em que foram pronunciadas, Mateus as dispõe de modo ordenado. Freqüentemente as reúne em amplas unidades discursivas, compostas com o objetivo de ajudar os crentes a aprendê-las de memória. Cinco delas, muito conhecidas, destacam-se pela sua extensão: O sermão do monte 5.3—7.27 O apostolado cristão 10.5-42 O reino dos céus 13.3-52 A vida da comunidade cristã 18.3-35 O final dos tempos 24.4—25.46 Estes sermões ou discursos aparecem no Evangelho precedidos e seguidos por determinadas fórmulas literárias que servem de marco dramático a cada composição (5.1-2 e 7.28-29; 10.5 e 11.1; 13.3 e 13.53; 18.1 e 19.1; 24.3 e 26.1). Por outro lado, não são estes os únicos discursos. Mateus contém muitos outros ensinamentos e exortações de Jesus aos seus discípulos (p. ex., 8.20-22; 11.7-19,27-30; 12.48-50; 16.24-28; 22.37-40), assim como admoestações dirigidas a escribas e fariseus (22.18-21; 23.1-36) ou, inclusive, a Jerusalém (23.37-38) e a algumas cidades da Galiléia (11.20-24). O tema predominante na pregação do Senhor é o Reino de Deus (9.35), geralmente designado neste Evangelho como “reino dos céus” e focalizado na sua dupla realidade, presente (4.17; 12.28) e futura (16.28). A proclamação da proximidade do Reino é também o anúncio de que Jesus encarrega os seus discípulos (10.7), aos quais, depois de ressuscitado, prometeu a sua permanência duradoura no meio deles: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (28.20). Mateus escreve a sua obra seguindo, em linhas gerais, o esquema de Marcos, mesmo quando a cada passo põe o seu selo pessoal nos textos que redige. Quanto aos materiais narrativos utilizados, se bem que muitos sejam comuns a Marcos e Lucas, há cerca de um quarto que Mateus emprega de maneira exclusiva. Os relatos de Mateus, mais concisos que os de Marcos, apresentam um rigoroso e belo estilo e mantêm certo tom cerimonial que induz a pensar num escritor de formação rabínica. Para isso contribui a presença no texto de não escassos elementos literários que são tipicamente hebraicos.    LíNGUA, TEMPO E LUGAR DE COMPOSIçãO Este Evangelho, como todos os livros do Novo Testamento, chegou a nós em língua grega. Desde os primeiros séculos da vida da Igreja, vem-se discutindo a possibilidade de que fora redigido inicialmente em aramaico e traduzido mais tarde para o grego; mas não há nenhuma fundamentação histórica de ter sido assim. O certo é que o texto grego de Mateus é o único que se conhece. No entanto, devido aos abundantes idiotismos semíticos que há no texto, o seu autor deve ter sido um judeu cristão que escreveu para leitores igualmente de origem judaica, mas de fala grega. Com respeito ao lugar e tempo da composição do Evangelho, não é possível fixá-los com exatidão. Muitos pensam que pode ter sido escrito em terras da Síria, talvez em Antioquia, depois que os exércitos romanos destruíram Jerusalém no ano 70.

Esboço

I. A Apresentação do Messias (1.1—4.11)
A. A Linhagem Judaica de Jesus (1.1-17)
B. Seu Nascimento e Fuga Para o Egito (1.18—2.23)
C.  O Predito Precursor do Messias (3.1-12)
D. O Batismo do Messias (3.13-17)
E. A Tentação do Messias (4.1-11)
II. O Ministério de Jesus na Galiléia e Arredores (4.12—18.35)
A. Resumo do Ministério Inicial na Galiléia (4.12-25)
B. Sermão Sobre o Discipulado no Reino de Deus (5.1—7.29)
C. Narrativa I: Sinais Miraculosos do Reino de Deus (8.1 —9.38)
D. Sermão da Proclamação do Reino (10.1-42)
E. Narrativa II: A Presença do Reino de Deus (11.1—12.50)
F. Sermão Sobre os Mistérios do Reino de Deus (13.1-58)
G. Narrativa III: Oposição ao Reino de Deus (14.1—17.27)
H. Sermão Sobre o Crente Como Membro do Reino de Deus (18.1-35)
III.  O Auge do Ministério Messiânico de Jesus na Judéia, Peréia e em Jerusalém  (19.1—26.46)
A. A Viagem de Jesus a Jerusalém (19.1—20.34)
B. A Última Semana de Jesus em Jerusalém (21.1—26.46)
1. Entrada Triunfal de Jesus e Purificação do Templo (21.1-22)
2. Disputas com os Judeus (21.23—22.46)
3. Censura aos Escribas e Fariseus (23.1-39)
4. Sermão do Monte das Oliveiras Sobre o Futuro do Reino de Deus (24.1—25.46)
5. A trama para matar Jesus (26.1-16)
6. A Última Páscoa (26.17-30)
7. Getsêmani (26.31-46)
IV.  A Prisão, Julgamento e Crucificação de Jesus (26.47—27.66)
A. A Prisão (26.47-56)
B. O Julgamento (26.57—27.26)
C. A Crucificação (27.27-56)
D O Sepultamento (27.57-66)
V. A Ressurreição de Jesus (28.1-20)
A. A Gloriosa Descoberta das Mulheres (28.1-10)
B. Falsas Testemunhas (28.11-15)
C. A Ordem do Senhor Ressurreto aos seus Discípulos (28.16-20)

Autor:Mateus
Tema:Jesus, o Messias e Rei
Data:Cerca de 60 d.C.

 Considerações Preliminares
É muito apropriado que dentre os Evangelhos este seja o primeiro, servindo assim de introdução ao NT e a “Cristo, o Filho do Deus vivo” (16.16). Embora o autor não apareça identificado por nome no texto bíblico, o testemunho unânime de todos os antigos pais da igreja (a partir de cerca de 130 d.C.) é que este Evangelho foi escrito por Mateus, um dos doze discípulos de Jesus.Enquanto que o Evangelho segundo Marcos foi escrito para os romanos (ver a introdução a Marcos), e o Evangelho segundo Lucas, para Teófilo e demais crentes gentios (ver introdução a Lucas), o Evangelho segundo Mateus foi escrito para os crentes judaicos. A origem judaica deste Evangelho se sobressai de muitas maneiras, por exemplo: (1) ele apóia-se na revelação, promessas e profecias do AT, para comprovar que Jesus era o Messias de há muito esperado; (2) faz a linhagem de Jesus retroceder até Abraão (1.1-17); (3) declara repetidas vezes que Jesus é o “Filho de Davi” (1.1; 9.27; 12.23; 15.22; 20.30,31; 21.9, 15; 22.41-45); (4) usa preferencialmente a terminologia judaica, como “reino dos céus” (um sinônimo de “reino de Deus”), por causa da reverente relutância dos judeus quanto a pronunciarem literalmente o nome de Deus; e (5) faz referência a costumes judaicos sem maiores explicações (prática essa diferente nos demais Evangelhos).
Este Evangelho, porém, não é exclusivamente judaico. Assim como a mensagem do próprio Jesus, o Evangelho segundo Mateus visava, em última análise, à igreja inteira, revelando fielmente o escopo universal do evangelho (e.g., 2.1-12; 8.11,12; 13.38; 21.43; 28.18-20).A data e o local onde este Evangelho foi escrito são incertos. Há, no entanto, bons motivos para crer que Mateus escreveu antes de 70 d.C., estando na Palestina ou em Antioquia da Síria. Certos eruditos bíblicos crêem que Mateus foi o primeiro dos quatro Evangelhos a ser escrito; outros atribuem essa primazia ao Evangelho segundo Marcos.

Propósito
Mateus escreveu este Evangelho (1) para prover seus leitores de um relato da vida de Jesus, por uma testemunha ocular, (2) para assegurar aos seus leitores que Jesus é o Filho de Deus e o Messias, esperado desde o remoto passado, predito pelos profetas do AT, e (3) para demonstrar que o reino de Deus se manifestou em Jesus de maneira incomparável. Mateus deixa claro para seus leitores (1) que Israel, na sua maioria, rejeitou a Jesus e ao seu reino e se recusou a crer nEle por ter Ele vindo como um Messias espiritual, e não político, e (2) que somente no fim da presente era é que Jesus virá em glória, como Rei dos reis para julgar e governar as nações.

Visão Panorâmica
Mateus apresenta Jesus como o cumprimento da esperança profética de Israel. Ele cumpre as profecias do AT, a saber, o modo como Jesus nasceu (1.22,23), o lugar do seu nascimento (2.5,6), o seu regresso do Egito (2.15), sua residência em Nazaré (2.23); como aquele, para o qual estava predito um precursor messiânico (3.1-3); o território principal do seu ministério público (4.14-16), o seu ministério de cura (8.17), a sua missão com o servo de Deus (12.17-21), os seus ensinos por parábolas (13.34,35), a sua entrada 
triunfal em Jerusalém (21.4,5), a sua prisão (26.50, 56).Os capítulos 5–25 registram cinco principais sermões e cinco principais narrativas de Jesus, em torno dos seus atos poderosos como o Messias. Os cinco principais sermões são: (1) o Sermão da Montanha (5–7); (2) instruções para os proclamadores itinerantes do reino de Deus (10); (3) as parábolas a respeito do reino (13); (4) o caráter dos verdadeiros discípulos do Senhor (18); e (5) o sermão do Monte das Oliveiras, a respeito do fim dos tempos (24-25). As cinco principais narrativas deste Evangelho são: (1) Jesus efetua obras poderosas em testemunho da realidade do seu reino (8,9); (2) Jesus demonstra mais profundamente a presença do reino (11,12); (3) a proclamação do reino provoca oposição diversa (14—17); (4) a viagem de Jesus a Jerusalém e sua última semana ali (21.1-26.46); e (5) a prisão, crucificação e ressurreição de Jesus dentre os mortos (26.47-28.20). Os três últimos versículos deste Evangelho registram a Grande Comissão de Jesus a seus discípulos.

Características Especiais
São sete as características principais deste Evangelho. (1) É o mais judaico dos quatro Evangelhos. (2) Contém a exposição mais sistemática dos ensinos de Jesus e do seu ministério de cura e libertação. Isto levou a igreja, no século II, a usá-lo intensamente na instrução dos novos convertidos. (3) Os cinco sermões principais já mencionados contêm os textos mais extensos dos Evangelhos sobre o ensino de Jesus (a) durante seu ministério na Galiléia, e (b) quanto a escatologia (as últimas coisas a acontecer). (4) Este Evangelho, de modo específico, identifica eventos da vida de Jesus como sendo cumprimento do AT, com mais freqüência do que qualquer outro livro do NT. (5) Menciona o reino dos céus (reino de Deus) duas vezes mais do que qualquer outro Evangelho. (6) Mateus destaca (a) os padrões de retidão do reino de Deus (5–7); (b) o poder divino ora em operação no reino, sobre o pecado, a doença, os demônios e a morte; e (c) o triunfo futuro do reino, na vitória final de Cristo, nos fins dos tempos. (7) Mateus é  único Evangelho que menciona a igreja como entidade futura pertencente a Jesus (16.18; 18.17).

MARCOS

IMPORTâNCIA DO EVANGELHO DE MARCOS Este Evangelho, o segundo dos livros do Novo Testamento, contém pouco material que não apareça igualmente em Mateus e Lucas. Apenas cinco passagens de Marcos (3.7-12; 4.26-29; 7.32-37; 8.22-26; 14.51-52) e alguns versículos isolados não foram registrados nos outros dois Evangelhos. Por essa razão, durante muito tempo, não se deu a Marcos (Mc) a importância teológica e literária que realmente tem. No entanto, desde o séc. XIX, começou a firmar-se a idéia de que o “segundo Evangelho” foi básico na preparação de Mateus e Lucas. E, ao considerar-se assim que Marcos é o documento mais antigo que possuímos sobre a vida e a obra de Jesus, foi despertado um grande interesse por estudá-lo.  AUTOR A opinião mais generalizada identifica o autor do nosso Evangelho com João Marcos (ou só João), parente de Barnabé (Cl 4.10) e filho de Maria, a qual morava em Jerusalém, em uma casa que dispunha de um “cenáculo onde se reuniam” os apóstolos (At 1.13; 12.12). Foi colaborador de Paulo (At 12.25; 13.5,13; 15.37,39; 2Tm 4.11; Fm 24) e, talvez, discípulo de Pedro, que na sua primeira carta o menciona como “meu filho Marcos” (1Pe 5.13). Marcos não é um historiador no sentido que hoje damos ao termo. Antes, é um narrador que conta o que chegou ao seu conhecimento. Escreve em grego, com a rusticidade característica de quem está usando um idioma que não lhe é próprio e, contudo, sabe desenvolver um estilo vivo e vigoroso. Recorre, provavelmente, à memória de coisas ouvidas, mas é capaz de criar no leitor a impressão de encontrar-se ante uma testemunha ocular dos fatos relatados.  PROPóSITO DO EVANGELHO Marcos não parece preocupado com questões biográficas. Exemplo disso é a ausência na sua obra de uma história do nascimento e da infância de Jesus, da maneira como o fazem Mateus e Lucas. Ademais, em termos gerais e excetuando talvez os caps. da prisão, julgamento, crucificação e ressurreição do Senhor (14—16), os dados cronológicos consignados pelo evangelista não permitem estabelecer com precisão a ordem em que ocorrem os acontecimentos. O que realmente importa ao evangelista é testificar que à pergunta sobre quem é Jesus a primeira comunidade cristã respondeu com convicção: Jesus é o Filho de Deus. E, fazendo-se eco dessa afirmação de fé, Marcos inicia a sua mensagem enunciando solenemente: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1.1; cf. também 1.11; 3.11; 5.7; 9.7; 14.61; 15.39).  CARACTERíSTICAS TEOLóGICAS E LITERáRIAS Este Evangelho proclama em cada uma das suas páginas que Jesus é a revelação definitiva de Deus, o qual, em seu Filho eterno, se integra na história da humanidade: Jesus, o singelo mestre chegado da Galiléia (1.9), é o Cristo, o Messias a quem desde séculos antigos esperava o povo de Israel (8.29; 9.41; 14.61-62). O evangelista anuncia a presença de Jesus no mundo como o sinal imediato da vinda do reino de Deus (1.14-15; 4.1-34). A personalidade de Jesus, entretanto, não satisfaz às expectativas judaicas, pois longe de apresentar-se como messias político e militar, o faz como um homem humilde cuja atividade e ensinamentos não correspondiam à imagem triunfante de um libertador nacional. Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, é também o Filho do Homem. Participa dos sentimentos humanos e é sujeito ao sofrimento e à morte (8.31). Com consciência da sua natureza humana, exige freqüentemente que a sua função messiânica se mantenha em segredo (1.43-44; 5.43; 8.29-30; 9.9,30-31), até que chegue o momento de ser acreditada pelos padecimentos morais e físicos que ele deverá enfrentar (14.35-36; 15.39). Uma característica típica de Marcos é que dedica mais espaço aos atos que aos discursos de Jesus. Na realidade, só dois desses últimos podem ser considerados como tais: a série de parábolas de 4.1-34 e o sermão escatológico de 13.3-37. Tudo mais são breves intervenções de ensinamento, exortação ou controvérsia. Por outro lado, o evangelista concede à descrição dos atos um espaço mais amplo, inclusive, às vezes, superior ao que Marcos e Lucas dedicam a narrativas paralelas (cf. 5.21-43 com Mt 9.18-26 e Lc 8.40-56; 6.14-29 com Mt 14.1-12; 6.30 com Mt 14.13-21 e Lc 9.10-17). À medida que progride, o desenvolvimento dramático do segundo Evangelho cresce em intensidade, até alcançar o seu ponto culminante no relato da paixão, crucificação e ressurreição de Jesus. O Senhor anuncia três vezes esses acontecimentos aos seus discípulos: “O Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas... e o entregarão aos gentios; hão de... matá-lo; mas, depois de três dias, ressuscitará” (10.33-34; ver 8.31 e 9.31. Cf. Mt 16.21; 17.22-23; 20.18-19 e Lc 9.22; 9.44; 18.32-33). Os discípulos não compreenderam até o último momento que o sacrifício de Jesus Cristo fazia parte do plano de salvação de que Deus o havia incumbido (8.32-38; 16.19-20).  LEITORES, TEMPO E LUGAR Com respeito à composição de Marcos, é provável que teve lugar em Roma ou, talvez, na Antioquia da Síria, antes do ano 70, data em que Jerusalém foi destruída. Não há base cronológica que permita datá-la com exatidão, de forma que alguns historiadores a situam entre 65 e 70, isto é, nos anos que seguiram à perseguição de 64, decretada por Nero; outros situam a data em torno do ano 63; e ainda outros a fazem retroceder até a década de 50. A antiga tradição eclesiástica viu neste Evangelho a influência dos ensinamentos de Pedro, de quem Marcos teria sido discípulo. Em princípio, foi escrito para leitores de origem gentílica, residentes fora da Palestina. Assim o sugere, entre outras peculiaridades, o fato de que o autor acrescenta à tradução grega expressões cujo original aramaico incorpora ao texto com a maior fidelidade (cf. 5.41; 7.11,34; 14.36; 15.22,34).  ESTRUTURA DO EVANGELHO A estrutura formal de Marcos tem dado lugar a diversas análises e a diferentes possibilidades de dividir o texto. A que mais adiante se oferece toma como base a revelação progressiva que Jesus faz de si mesmo: por um lado, a sua personalidade (cf. 1.7-8,10-11; 4.41; 8.27-29; 9.7), o seu poder frente à natureza, à dor e à morte (cf. 1.30-31,40-42; 2.3-12; 4.37-39; 5.22-42; 6.45-51) e a sua luta contra as forças do mal (cf. 1.24-27; 3.11; 5.15,19; 9.25-27); por outro lado, a índole da sua missão, primeiro como mestre e profeta (cf. 1.37-39; 2.18-28; 3.13-19,23-29; 4.1-34; 9.2—10.45; 13.3-37; 14.61-62) e definitivamente como Senhor e Salvador (16.15-18).

Esboço

I. A Preparação para o Ministério de Jesus (1.1-13)
A. O Ministério de João Batista (1.2-8)
B. O Batismo de Jesus (1.9-11)
C. A Tentação de Jesus (1.12,13)
II. O  Ministério Inicial na Galiléia (1.14–3.6) 
A. Os Quatro Primeiros Discípulos (1.14-20)
B. Um Sábado em Cafarnaum (1.21-34)
C. A Primeira Viagem de Pregação (1.35-45)
D. Conflito com os Fariseus (2.1—3.6)
III. O Ministério Posterior na Galiléia (3.7—7.23)
A. Retirada à Beira-Mar (3.7-12)
B. A Escolha dos Doze Discípulos (3.13-19)
C. Amigos e Inimigos (3.20-35)
D. Ensinando Através de Parábolas (4.1-34)
E. Ensinando Através de Obras Poderosas (4.35—5.43)
F. Jesus em Nazaré (6.1-6)
G. A Missão dos Doze (6.7-13)

H. Herodes e João Batista (6.14-29)
I. Milagres e Ensinos Junto ao Mar da Galiléia (6.30-56) 
J. Conflito com as Tradições (7.1-23)
IV. O Ministério Além da Galiléia (7.24—9.29)
A. Duas Curas de Gentios (7.24-37)
B. Mais Milagres (8.1-26)
C. O Episódio de Cesaréia de Filipo (8.27—9.1)
D.A Cena da Transfiguração (9.2-29)
V. A  Caminho de Jerusalém (9.30—10.52)
A. Caminhando Através da Galiléia (9.30-50)
B. O Ministério na Peréia (10.1-52)
VI.A Semana da Paixão (11.1—15.47)
A.Domingo: Entrada Triunfal em Jerusalém (11.1-11)
B.Segunda-Feira
1. Amaldiçoando a Figueira (11.12-14)
2. Purificando o Templo (11.15-19)

C. Terça-Feira
1. Fé e Medo Quanto aos Discípulos (11.20-33)
2. Parábolas e Controvérsias (12.1-44)
3. O Sermão Profético (13.1-37)
4. Jesus é Ungido em Betânia (14.1-11)
D. Quinta-Feira: A Última Ceia (14.12-25)
E. Sexta-Feira
1. Jesus em Getsêmani (14.26-52)
2. Jesus Perante o Sinédrio (14.53-72)
3. Jesus Perante Pilatos (15.1-20)
4. Jesus Crucificado e Sepultado (15.21-47)
VII. A Ressurreição de Jesus (16.1-20)
A .A Ressurreição Anunciada (16.1-8)
B. Aparições Pós-Ressurreição (16.9-18)
C. A Ascensão e a Missão Apostólica (16.19,20)

Autor:Marcos
Tema:Jesus, o Filho-Servo
Data:55-65 d.C.

 Considerações Preliminares

Dentre os quatro Evangelhos, Marcos é o relato mais conciso do “princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1.1). Embora o autor não se identifique pelo nome no livro (o mesmo ocorre nos demais Evangelhos), o testemunho primitivo e unânime da igreja é que João Marcos foi quem o escreveu. Ele foi criado em Jerusalém e pertenceu à primeira geração de cristãos (At 12.12). Teve a oportunidade ímpar de colaborar no ministério de três apóstolos: Paulo (At 13.1-13; Cl 4.10; Fm 24), Barnabé (At 15.39) e Pedro (1 
Pe 5.13). Segundo Papias (c. de 130 d.C.) e outros pais eclesiásticos do século II, Marcos obteve o conteúdo do seu Evangelho através da sua associação com Pedro, escreveu-o em Roma e destinou-o aos crentes de Roma. Embora seja incerta a data específica da escrita do Evangelho segundo Marcos, a maioria dos estudiosos o coloca nos fins da década de 50 d.C., ou na década de 60; é possível que seja o primeiro dos quatro Evangelhos a ser escrito. 

Propósito

Na década 60-70 d.C., os crentes de Roma eram tratados cruelmente pelo povo e muitos foram torturados e mortos pelo imperador romano, Nero. Segundo a tradição, entre os mártires cristãos de Roma, nessa década, estão os apóstolos Pedro e Paulo. Como um dos líderes eclesiásticos em Roma, João Marcos foi inspirado pelo Espírito Santo a escrever este Evangelho, como uma antevisão profética desse período da perseguição, ou como uma resposta pastoral à perseguição. Sua intenção era fortalecer os alicerces da fé dos crentes romanos e, se necessário fosse, inspirá-los a sofrer fielmente em prol do evangelho, oferecendo-lhes como modelo a vida, o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus seu Senhor.

Visão Panorâmica

Numa narrativa de cenas rápidas, Marcos apresenta Jesus como o Filho de Deus e o Messias, o Servo Sofredor. O momento culminante do livro é o episódio de Cesaréia de Filipo, seguido da transfiguração (8.27—9.10), onde tanto a identidade de Jesus, quanto a sua dolorosa missão plenamente reveladas aos seus doze discípulos. A primeira metade de Marcos focaliza em primeiro plano os estupendos milagres de Jesus e a sua autoridade sobre doenças e demônios, como sinais de que o reino de Deus está próximo. Em Cesaréia de Filipo, no entanto, Jesus declara abertamente aos seus discípulos que “importava que o Filho do Homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos, e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que, depois de três dias, ressuscitaria” (8.31). Há numerosas referências em todo o livro de Marcos ao sofrimento como o preço do discipulado (e.g., 3.21,22, 30; 8.34-38; 10.30, 33,34, 45; 13.8, 11-13).Apesar disso, a vindicação da parte de Deus vem após o sofrimento, por amor à justiça, conforme demonstrou a ressurreição de Jesus.

Características Especiais

Quatro características distinguem o Evangelho segundo Marcos: (1) Sendo um Evangelho de ação, ele enfatiza mais aquilo que Jesus fez, do que suas palavras. Daí, Marcos registrar dezoito milagres de Jesus, mas somente quatro das suas parábolas. (2) Como um Evangelho aos romanos, ele explica os costumes judaicos, omite todas as genealogias judaicas, a narrativa do nascimento de Jesus, traduz as palavras aramaicas e emprega termos latinos. (3) Marcos inicia seu Evangelho de modo repentino, e descreve os eventos da vida de Jesus de modo sucinto e rápido, introduzindo os episódios mediante o advérbio grego que corresponde a “imediatamente” (42 vezes no original). (4) Como um Evangelho vigoroso, Marcos descreve os eventos da vida de Jesus, de modo sucinto e vívido, com a perícia pitoresca de um gênio literário.

LUCAS

AUTOR E OBJETIVO DO EVANGELHO Entre os quatro evangelistas, é Lucas quem mais se aproxima do conceito atual de historiador. Cuidadoso no seu trabalho, é provável que ao começar a prepará-lo já teve a previsão da publicação de uma obra em dois volumes. O primeiro é o Evangelho que leva o seu nome; o segundo, Atos dos Apóstolos. Com a publicação desses livros, o autor quis transmitir uma mensagem de valor universal: que Jesus, o “Filho do Altíssimo” (1.32), representa o último capítulo do desenvolvimento da humanidade; e que a sua existência terrena, manifesta sob a denominação de “Filho do Homem” (6.22), significa que Deus veio estabelecer o seu Reino entre nós e que nos convida a participar dessa realidade nova e definitiva (17.20-21). Desde o prólogo do Evangelho (1.1-4), Lucas revela uma grande preocupação de referir em detalhes “uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1.1). E mesmo que ele não tenha vivido pessoalmente o acontecimento de Cristo, trata de proclamá-lo “conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares” (1.2). Com esse objetivo, havia-se entregado de antemão a uma “acurada investigação de tudo desde sua origem” (1.3). Igualmente, como faria mais tarde ao compor o livro dos Atos dos Apóstolos, também agora dedica Lucas o seu “primeiro livro” (At 1.1) a um personagem de destaque chamado Teófilo, acerca de quem não nos chegou maior informação. Apenas o conhecemos por essas dedicatórias, que, na moldura dos seus respectivos prólogos (Lc 1.1-4; At 1.1-5), correspondem às formas literárias usuais entre os escritores gregos de então. Lucas, certamente, preocupou-se em narrar de maneira inteligente e ordenada tudo quanto sabia acerca da pessoa e do ministério de Jesus. Entretanto, não é menos certo que, em sentido estrito, nunca pretendeu escrever uma biografia, senão um Evangelho. A sua intenção não esteve simplesmente orientada para dar a conhecer a vida, as características pessoais e a atividade de Jesus em meio à multiplicidade de situações religiosas, políticas e sociais em que se desenvolve o drama humano. Lucas, o evangelista, escreve desde a fé e para a fé, oferecendo com isso um testemunho pessoal de que Jesus é o Messias que veio a dar cumprimento perfeito ao plano salvador preparado por Deus antes de todos os tempos.  CARACTERíSTICAS TEOLóGICAS E LITERáRIAS O Evangelho Segundo Lucas (Lc) ajusta-se, em termos gerais, aos esquemas de Mateus e de Marcos. Sendo assim, é preciso acrescentar que Lucas trabalhou e poliu o seu texto com especial esmero. Do ponto de vista literário, grande parte dos materiais redacionais comuns aos três Evangelhos sinóticos encontra-se mais depurada no terceiro Evangelho do que nos dois primeiros. Isso é possível graças ao domínio que Lucas possui do idioma e a riqueza do vocabulário que maneja. A amplitude dos seus recursos estilísticos manifesta-se, inclusive, quando, a fim de reproduzir com fidelidade determinadas formas da fala popular aramaica (sobretudo em discursos de Jesus), introduz conscientemente semitismos ou palavras gregas que se distanciam do habitual nível culto dele. A partir do prólogo, o texto de Lucas pode-se distribuir em cinco seções: A primeira seção (1.5—2.52), sem paralelo em Mateus e Marcos, contém os relatos entrelaçados do nascimento de João Batista e de Jesus. Ocorrem aqui algumas circunstâncias que os tornam semelhantes: a apresentação de dados históricos (1.5 e 2.1-5); a aparição do anjo Gabriel a Zacarias e Maria (1.19 e 1.26); as respectivas mensagens de que o anjo é portador (1.11-20 e 1.26-38); os cânticos de Maria e Zacarias em louvor ao Senhor (1.46-55 e 1.67-79); o nascimento de João e o de Jesus e a circuncisão de ambos em cumprimento do que foi estabelecido pela Lei mosaica (1.57-59 e 2.21-24). Começa a segunda seção (3.1—4.13) situando historicamente (3.1-2) um conjunto de fatos: a pregação e o encarceramento de João Batista (3.1-20), o batismo de Jesus (3.21-22) e a tentação no deserto (4.1-13). Lucas, tal qual Mateus (Mt 1.1-17), insere uma genealogia; mas, em lugar de limitá-la à ascendência hebraica de Jesus, a faz remontar até Adão (3.23-38), para dar ênfase ao caráter universal da obra do Senhor. A terceira seção do Evangelho (4.14—9.50) compreende o ministério público de Jesus na Galiléia, onde ensinou, pregou, reuniu os seus discípulos, curou a enfermos e possessos, fez milagres e anunciou que haveria de sofrer, morrer e ressuscitar. Há aqui textos muito importantes: a parábola do semeador (8.4-15), a ressurreição da filha de Jairo (8.40-56), a confissão de Pedro (9.18-20) e a transfiguração do Senhor (9.28-36). Também temos aqui relatos que Mateus e Marcos não incluem, como a ressurreição do filho da viúva de Naim (7.11-17) e a visita do Senhor à casa de Simão, o fariseu (7.36-50). Na quarta seção (9.51—19.27) agrupam-se numerosas passagens exclusivas deste terceiro Evangelho. Entre outras, uma série de parábolas muito conhecidas: o bom samaritano (10.25-37), a figueira estéril (13.6-9), a grande ceia (14.15-24), o filho pródigo (15.11-32), o rico e Lázaro (16.19-31), a viúva e o juiz iníquo (18.1-8), o fariseu e o publicano (18.9-14) e as dez minas (19.11-27). A quinta seção (19.28—24.53) narra os acontecimentos finais da vida terrena de Jesus. São os seus últimos dias, que têm Jerusalém por cenário único. Todos os fatos ocorrem nessa cidade, desde o dia em que o povo recebe em triunfo o Senhor (19.28-38) até que é preso, processado, crucificado, morto e sepultado. Os sofrimentos, a morte e a ressurreição do Senhor (22.47—24.49) constituem o ponto culminante do relato dos quatro Evangelhos, cada um dos quais traz alguma informação exclusiva que não se encontra nos demais. No caso de Lucas, destaca-se como informação própria a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos no caminho de Emaús (24.13-35).  LEITORES, LUGAR E DATA DA COMPOSIçãO O presente Evangelho foi escrito para cristãos de procedência gentílica. Desde a Antigüidade tem-se mantido como critério praticamente unânime a identificação do seu autor com Lucas, o companheiro de Paulo (2Tm 4.11; Fm 24), a quem este se refere em Cl 4.14 como o “médico amado”. Nenhum outro dado, porém, em relação ao nosso evangelista foi registrado no Novo Testamento. Assim ignora-se em que lugar e em que tempo foi redigido o Evangelho. Somente a título de hipótese têm-se apontado lugares tão diversos como Corinto, Éfeso e Roma e datas que vão desde o ano 60 até 95. 

Esboço

I.  Prefácio (1.1-4)
II. A Vinda do Salvador (1.5—2.52)
A. Anúncio do Nascimento de João Batista (1.5-25)
B. Anúncio do Nascimento de Jesus (1.26-56)
C. Nascimento de João Batista (1.57-80)
D. Nascimento de Jesus (2.1-20)
E. O menino Jesus no Templo (2.21-39)
F. Jesus Vai ao Templo aos Doze Anos (2.40-52)
III.  Preparação do Salvador para o Seu Ministério (3.1—4.13)
A. Pregação de João Batista (3.1-20)
B. Batismo de Jesus (3.21-22)
C.Genealogia de Jesus (3.23-38)
D. Tentação de Jesus (4.1-13)
IV. Ministério na Galiléia (4.14–9.50)
A. Início do Ministério de Jesus e Rejeição em Nazaré (4.14-30)
B. Cafarnaum: Jesus Manifesta a Sua Autoridade Divina (4.31-44)
C. A Pesca Maravilhosa (5.1-11)
D. Curando o Leproso (5.12-16)
E. Desafio à Autoridade de Jesus (5.17-26)
F. O Salvador dos Pecadores (5.27-32)
G. Uma Nova Dispensação (5.33—6.49)
H. Demonstração de Poder Divino (7.1—8.56)
I.  Jesus Outorga Poder aos Seus Discípulos (9.1-6)
J. Herodes e João Batista (9.7-9)
L. A Multiplicação dos Pães para Cinco Mil (9.10-17)
M. A Confissão de Pedro e a Resposta de Jesus (9.18-27)
N. A Glória do Salvador Revelada (9.28-50)
V.A Viagem Final de Jesus a Jerusalém (9.51—19.28)
A. A Missão Redentora do Salvador (9.51–10.37)
B. Jesus Ensina Sobre o Serviço e a Oração (10.38—11.13) 
C. Jesus Adverte a Oponentes e Seguidores (11.14—14.35)
D. Parábolas Sobre Perdidos e Achados (15.1-32)
E. Mandamentos de Jesus aos Seus Seguidores (16.1—17.10)
F. Ingratidão de Nove Leprosos Curados (17.11-19)
G. A Volta Repentina de Jesus (17.20—18.14)
H. O Salvador, as Criancinhas e o Jovem Rico (18.15-30)
I. Perto do Fim da Viagem (18.31—19.28)
VI. A semana da Paixão (19.29-23.56) 
A. Jesus Entra em Jerusalém (19.29-48)
B. Jesus Ensina Diariamente no Templo (20.1—21.4)
C. Jesus Prediz a Destruição do Templo e a Sua Volta (21.5-38)
D. Preparativos Finais e a Última Ceia (22.1-38)
E.  Jesus em Getsêmani: Sua Oração e Traição (22.39-53)
F. O Julgamento de Jesus pelos Judeus (22.54-71)
G. O Julgamento de Jesus pelos Romanos (23.1-25)
H. A Crucificação (23.26-49)
I. O Sepultamento (23.50-56)
VII. Ressurreição e Ascensão (24.1-53)
A. A Manhã da Ressurreição (24.1-12)
B. As Aparições do Senhor Ressurreto (24.13-43)
C. As Instruções de Despedida (24.44-53)

Autor:Lucas
Tema:Jesus, o Salvador Divino-Humano
Data:Data:     60-63 d.C.

 Considerações Preliminares

O Evangelho segundo Lucas é o primeiro dos dois livros endereçados a um certo Teófilo (1.3; At 1.1). Embora o autor não se identifique pelo nome em nenhum dos dois livros, o testemunho unânime do cristianismo primitivo e as evidências internas indicam a autoria de Lucas nos dois casos.Segundo parece, Lucas era um gentio convertido, sendo o único autor humano não-judeu de um livro da Bíblia. O Espírito Santo o moveu a escrever a Teófilo (cujo nome significa “aquele que ama a Deus”) a fim de suprir uma necessidade da igreja gentia, de um relato completo do começo do cristianismo. A obra tem duas partes: (1) o nascimento, vida e ministério, morte, ressurreição e ascensão de Jesus (Lucas), e (2) o derramamento do Espírito em Jerusalém e o desenvolvimento subseqüente da igreja primitiva (Atos). Esses dois livros perfazem mais de uma quarta parte do NT.Pelas epístolas de Paulo sabemos que Lucas era um “médico amado” (Cl 4.14) e um leal cooperador do apóstolo (2 Tm 4.11; Fm 24; cf. os trechos em Atos na primeira pessoa do plural; ver a introdução a Atos). Pelos escritos de Lucas, vemos que ele era um escritor culto e hábil, um historiador atento e teólogo inspirado. Segundo parece, quando Lucas escreveu o seu Evangelho, a igreja gentia não tinha nenhum desses livros completo ou bem conhecido, a respeito de Jesus. Primeiramente Mateus escreveu um Evangelho para os judeus, e Marcos escreveu um Evangelho conciso para a igreja em Roma. O mundo gentio de língua grega dispunha de relatos orais de Jesus, dados por testemunhas oculares, bem como breves tratados escritos, mas nenhum Evangelho completo com os fatos na devida ordem (ver 1.1-4). Daí, Lucas se propôs a investigar tudo cuidadosamente “desde o princípio” (1.3), e, provaveLcente, fez pesquisas na Palestina enquanto Paulo esteve na prisão em Cesaréia (At 21.17; 23.23—26.32) e terminou o seu Evangelho perto do fim daquele período, ou pouco depois de chegar a Roma com Paulo (At 28.16).

Propósito

Lucas escreveu este Evangelho aos gentios para proporcionar-lhes um registro completo e exato de “tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia que foi recebido em cima” (At 1.1b,2a). Escrevendo sob a inspiração do Espírito Santo, sua intenção foi transmitir a Teófilo e outros convertidos e interessados gentios, com certeza, a plena verdade sobre o que já tinham sido oralmente inteirados (1.3,4). Lucas no seu Evangelho deixa claro que ele escreveu para os gentios. Por exemplo, ele apresenta a genealogia humana de Jesus, recuando-a até Adão (3.23-38) e não até Abraão, conforme fez Mateus (cf. Mt 1.1-17). Em Lucas, Jesus é visto claramente como o Salvador divino-humano, que veio como a provisão divina da salvação para todos os descendentes de Adão.

Visão Panorâmica

O Evangelho segundo Lucas começa com as narrativas mais completas da infância de Jesus (1.5—2.40), bem como apresenta o único vislumbre, nos Evangelhos, da juventude de Jesus (2.41-52). Depois de descrever o ministério de João Batista e apresentar a genealogia de Jesus, Lucas divide o ministério de Jesus em três seções principais: (1) seu ministério na Galiléia e arredores (4.14—9.50), (2) seu ministério durante a viagem final a Jerusalém (9.51—19.27); e (3) sua última semana em Jerusalém (19.28—24.43).Embora os milagres ocupem lugar de destaque no registro de Lucas sobre o ministério de Jesus na Galiléia, o enfoque principal deste Evangelho consiste nos ensinos e parábolas de Jesus durante seu extenso ministério a caminho de Jerusalém (9.51—19.27). Esta é a maior seção de assuntos exclusivos de Lucas, e inclui muitas histórias e parábolas prediletas. O versículo determinante (9.51) e o versículo-chave (19.10) do Evangelho ocorrem no início e perto do fim dessa seção especial.

Características Especiais

São oito as características principais do Evangelho segundo Lucas. (1) Seu amplo alcance no registro dos eventos na vida de Jesus, desde a anunciação do seu nascimento até a sua ascensão. (2) A qualidade excepcional do seu estilo literário, empregando um vocabulário rico e escrito com um domínio excelente da língua grega. (3) O alcance universal do Evangelho — que Jesus veio para salvar a todos: judeus e gentios igualmente. (4) Ele salienta a solicitude de Jesus para com os necessitados, inclusive mulheres, crianças, os 
pobres e os socialmente marginalizados. (5) Sua ênfase na vida de oração de Jesus e nos seus ensinos a respeito da oração. (6) O notável título de Jesus neste Evangelho, a saber: “Filho do Homem”. (7) Seu enfoque sobre a alegria que caracteriza aqueles que aceitam a Jesus e a sua mensagem. (8) Sua ênfase na importância e proeminência do Espírito Santo na vida de Jesus e do seu povo (e.g., 1.15, 41, 67; 2.25-27; 4.1, 14, 18; 10.21; 12.12; 24.49).

JOÃO

PROPóSITO João, o autor do quarto Evangelho, manifesta com admirável concisão o propósito que o move para escrevê-lo. Como que dialogando figuradamente com os seus futuros leitores, explica-lhes que os sinais milagrosos feitos por Jesus e recolhidos “neste livro... foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.30-31). Esta é, em resumo, a intenção que guia o evangelista a coligir também o conjunto de ensinamentos e discursos reveladores da natureza e razão de ser da atividade desenvolvida por Jesus, o Messias, o Filho unigênito (1.14), enviado pelo Pai para tirar “o pecado do mundo” (1.29) e para dar vida eterna a “todo o que nele crê” (3.13-17). O autor do Evangelho de João (Jo) apresenta-se, tal qual João Batista, como uma testemunha viva da revelação de Deus. Ninguém jamais viu a Deus (1.18), mas agora deu-se a conhecer por intermédio do seu Filho (19.35; 21.24. Cf. 1.6-8,15). Encarnado na realidade humana, o Cristo preexistente e eterno veio conferir à nossa história um novo sentido, uma categoria que excede a toda a nossa capacidade de compreensão e raciocínio. Disso, João Batista prestou um testemunho precursor no começo do ministério público de Jesus. Agora, o faz João, o evangelista, a partir da perspectiva do Cristo que vive apesar da morte, do Senhor que, com a sua morte, venceu o mundo (16.33) e que é vida para todo aquele que o aceita pela fé (11.25-26). A lembrança do Ressuscitado está sempre presente no coração do autor deste Evangelho, como, sem dúvida, ela esteve em cada um dos discípulos que acompanharam o Senhor durante os dias da sua existência terrena (Cf. 2.17,22; 12.16; 14.26; 15.20; 16.4). E o acontecimento da ressurreição é como uma linha luminosa que percorre o livro de João desde o princípio até o fim e permite contemplar a figura única e irrepetível do Messias Salvador. Mais que oferecer uma biografia de Jesus no sentido estrito que hoje damos à palavra, João pretende introduzir o leitor numa profunda reflexão acerca da pessoa do Filho de Deus e do mistério da redenção que nele nos tem sido revelado. Em Cristo manifestou-se o amor de Deus, e, por meio dele, o crente tem acesso às moradas eternas (14.2,23), isto é, a uma vida de comunhão com o Pai.  PARTICULARIDADES DO EVANGELHO O ponto de partida do quarto evangelista para as suas considerações sobre o Messias não é o mesmo que o de Mateus, Marcos e Lucas. João busca outros enfoques, de maneira que, freqüentemente, se refere a situações e eventos ou inclui palavras, ensinamentos e discursos de Jesus não testificados pelos sinóticos. Isso permite supor que, provavelmente, João, contando com alguma fonte de informação própria, tenha podido ampliar determinados dados conhecidos e transmitidos por aqueles, admitindo-se sobretudo que, de acordo com o critério mais amplamente aceito, a redação do quarto Evangelho teve lugar depois da aparição dos outros três, em datas próximas ao final do séc. I. Um aspecto singular deste Evangelho é o persistente interesse em fixar os lugares dos acontecimentos. E curiosamente, enquanto Mateus, Marcos e Lucas dão maior atenção às atividades de Jesus na Galiléia, João fixa-se de modo especial nos fatos que têm lugar em Jerusalém (mas cf. Jo 2.12; 4.43-54; 6.1; 7.9). Ao mesmo tempo enfatiza que determinadas festas do calendário judaico parecem marcar os momentos escolhidos pelo Senhor para entrar na cidade: a Páscoa (2.23; 11.55), a Festa dos Tabernáculos (7.2), a Festa da Dedicação do Templo (10.22) e, inclusive, uma festa não referida com precisão (5.1). Essa relação simultânea de Jesus com Jerusalém e com as festividades judaicas é um dos elementos de composição que contribuem a dar ao texto deste Evangelho o seu colorido peculiar. Mas não é o único, pois existem outros traços igualmente característicos que é necessário ter presentes. Destacamos entre eles: (a) A linguagem simbólica (p. ex.: o Verbo: 1.1; a água: 7.37; o pão: 6.35; a luz: 8.12). (b) As imagens tiradas do Antigo Testamento (p. ex.: o pastor e as ovelhas: 10.1-18; cf. Sl 23; a videira e os ramos: 15.1-6; cf. Is 5.1-7). (c) As referências culturais ou à natureza humana (p. ex.: as bodas em Caná, a personalidade de Nicodemos, a mulher samaritana, o cego de nascimento).  AUTOR Detalhes como os indicados caracterizam o autor como um autêntico judeu, profundamente religioso e bom conhecedor das tradições e das expectativas do seu povo; mas um judeu que encontrou em Jesus de Nazaré o Messias esperado, o Salvador e Senhor, “de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas” (1.45; 12.34,38-40; 15.25). No entanto, não contamos com muito mais informação acerca da pessoa deste evangelista. Dir-se-ia, melhor, que o mesmo deseja ocultar a sua identidade por trás de um anonimato apenas rompido quando se refere àquele discípulo “a quem ele amava” (13.23; 19.26; 20.2; 21.20), de quem em 21.24 se diz que “dá testemunho a respeito destas coisas e que as escreveu”. A tradição que atribui o Evangelho ao filho de Zebedeu, a “João, seu irmão” (de Tiago) (Mc 3.17) remonta ao séc. II.  CONTEúDO No decorrer dos anos têm sido feitos diversos esforços para estabelecer de algum modo a cronologia dos acontecimentos referidos no quarto Evangelho ou para agrupar logicamente os seus elementos literários. Como é evidente que o propósito de João não foi redigir uma crônica, mas criar uma atmosfera de reflexão que conduza o leitor à fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, a composição do livro também deve ser considerada desse ponto de vista. Por outro lado, aquilo que se torna claro num primeiro contato com o texto é a sua divisão em duas grandes seções. Delas, uma chega até o final do cap. 12 e está centrada no ministério público de Jesus; a outra, que compreende os caps. 13—21, narra o acontecido em Jerusalém durante a última semana da vida terrena de Jesus, incluindo a sua paixão e morte e a sua ressurreição. O conjunto de caps. que forma a primeira seção do livro abre-se com um Prólogo (1.1-18) que, com ressonâncias de Gn 1.1, exalta a encarnação da Palavra de Deus, eterna e criadora, na pessoa de Jesus, o Cristo. Junto a outros assuntos, o Evangelho se refere aqui a um total de sete milagres ou sinais realizados pelo Senhor para manifestar a sua glória e para que os seus discípulos cressem nele (2.11; 4.48; 5.18; 6.14; 9.35-38; 11.15,40). São os seguintes: 1. A conversão da água em vinho (2.1-11) 2. A cura do filho de um oficial do rei (4.46-54) 3. A cura de um paralítico (5.1-18) 4. A alimentação de uma multidão (6.1-14) 5. Jesus caminha sobre as águas (6.16-21) 6. A cura de um cego de nascença (9.1-12) 7. A ressurreição de Lázaro (11.1-44). Com respeito a esses atos milagrosos é importante sublinhar o que também se percebe em primeiro lugar na intenção do evangelista, isto é, o seu propósito em destacar o sentido profundo desses milagres como manifestações da atividade messiânica de Jesus. Para dar realce a esse enfoque contribuem os diálogos e discursos que em diversas ocasiões acompanham o relato dos sinais (assim em 5.17-47; 6.25-70; 9.35—10.42; 11.7-16,21-27). A segunda parte do livro mostra Jesus no seu confronto com os poderes públicos, representados particularmente pelas autoridades religiosas dos judeus. Encabeça a seção o lavamento dos pés dos discípulos e a predição da traição de Judas (13.1-30); logo depois há um longo discurso dirigido aos discípulos (14.1—16.33), concluído com uma oração conhecida como “sacerdotal” (17.1-26). Os caps. 18 e 19 contêm o relato da prisão, julgamento, morte e sepultamento de Jesus; e os caps. 20 e 21 são o testemunho que João presta da ressurreição de Jesus e das diversas aparições do Ressuscitado.

Esboço

O Prólogo do Verbo (1.1-18)
I. Apresentação de Cristo a Israel (1.19-51)
A. Por João Batista (1.19-36)
B. Aos Primeiros Discípulos (1.37-51)
III. Os Sinais e Sermões de Cristo Diante de Israel e a Sua Rejeição (2.1—12.50)
A. A Revelação de Cristo a Israel (2.1— 11.46)
1.Primeiro Sinal: A Água Transformada em Vinho (2.1-11)
                Interlúdio (2.12)
2.Testemunho Inicial aos Judeus em Jerusalém (2.13-25)
                Festa em Jerusalém (Páscoa) (2.23-25)
3. Primeiro Sermão: O Novo Nascimento e a Nova Vida (3.1-21)
                Interlúdio: João Batista e Jesus (3.22—4.3)
4. Segundo Sermão: A Água da Vida (4.4-42)
                Interlúdio na Galiléia (4.43-45)
5.Segundo Sinal: Curando o Filho do Régulo (4.46-54)
                Festa em Jerusalém (5.1)
6.Terceiro Sinal: Curando o Paralítico em Betesda no Sábado (5.2-18)
7. Terceiro Sermão: A Filiação Divina de Cristo (5.19-47)
8. Quarto Sinal: Alimentando os Cinco Mil (6.1-15)
9. Quinto Sinal: Andando sobre o Mar (6.16-21)
10.Quarto Sermão: O Pão da Vida (6.22-59)
11. Seleção dos Discípulos (6.60-71)
                Interlúdio (7.1)
12. Festa em Jerusalém (Tabernáculos) (7.2-36)

13.Quinto Sermão: O Espírito Vivificante (7.37-52)
          A Mulher Encontrada em Adultério (7.53—8.11)
14.Sexto Sermão: A Luz do Mundo (8.12-30)
15.Controvérsia com os Judeus (8.31-59)
16.Sexto Sinal: Curando o Cego de Nascença (9.1-41)
17. Sétimo Sermão: O Bom Pastor (10.1-21)
          Festa em Jerusalém (Festa da Dedicação — 10.22-42)
18. Sétimo Sinal: A Ressurreição de Lázaro (11.1-46)
B.Cristo é Rejeitado por Israel (11.47—12.50)
III. Cristo e o Começo do Povo do Novo Concerto (13.1—20.29)
A. A Última Ceia (13.1—14.31)
1.A Lavagem dos Pés dos Discípulos e a Conversação Subseqüente (13.1-38)
2. Jesus, o Caminho ao Pai (14.1-31)
A. A Última Ceia (13.1—14.31)
B. Sermão sobre a Videira Verdadeira e as Bênçãos da União com Cristo 
            (15.1—16.33)
C. Oração por Si Mesmo e pelo Povo do Novo Concerto (17.1-26)
D. O Servo Sofredor (18.1—19.42)
1.A Prisão (18.1-12) 
2.O Julgamento pelos Judeus (18.13-27)
3.O Julgamento pelos Romanos (18.28—19.16)
4.A Crucificação (19.17-37)
5.O Sepultamento (19.38-42)
E. O Senhor Ressurreto (20.1-29)
O Propósito do Autor (20.30,31)  
O Epílogo (21.1-25)

Autor:João
Tema:Jesus, o Filho de Deus
Data:80-95 d.C.

 Considerações Preliminares

O Evangelho segundo João é ímpar entre os quatro Evangelhos. Relata muitos fatos do ministério de Jesus na Judéia e em Jerusalém que não se acham nos Sinóticos, e revela mais a fundo o mistério da sua pessoa. O autor identifica-se indiretamente como o discípulo “a quem Jesus amava” (13.23; 19.26; 20.2; 21.7, 20). O testemunho dos primórdios do cristianismo, bem como a evidência interna deste Evangelho, evidenciam João, o filho de Zebedeu, como o autor. João foi um dos doze apóstolos originais de Cristo, e também um dos três mais chegados a Ele (Pedro, Tiago e João).
Segundo testemunhos muito antigos, os presbíteros da igreja da Ásia Menor pediram ao venerável ancião e apóstolo João, residente em Éfeso, que escrevesse este “Evangelho espiritual” para contestar e refutar uma perigosa heresia concernente à natureza, pessoa e deidade de Jesus, propagada por um certo judeu de nome Cerinto. O Evangelho segundo João continua sendo para a igreja uma grandiosa exposição teológica da “Verdade”, como a temos personalizada em Jesus Cristo.

Propósito

João deixa claro o propósito do seu Evangelho, em 20.31, a saber: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Alguns manuscritos gregos deste Evangelho apresentam, nesta passagem, formas verbais distintas para “crer”. Uns contêm o aoristo subjuntivo (“para que comecem a crer”); outros contêm o presente do subjuntivo (“para que continuem crendo”). No primeiro caso, João teria escrito para convencer os incrédulos a crer em Jesus Cristo e serem salvos. No segundo caso, João teria escrito para consolidar os fundamentos da fé de modo que os crentes continuassem firmes, apesar dos falsos ensinos de então, e assim terem plena comunhão com o Pai e o Filho (cf. 17.3). Estes dois propósitos são vistos no Evangelho segundo João. Contudo, o peso do Evangelho no seu todo favorece o segundo caso como sendo o propósito predominante. 

Visão Panorâmica

O quarto Evangelho apresenta evidências cuidadosamente selecionadas no sentido de Jesus ser o Messias de Israel e o Filho encarnado (não adotado) de Deus. As evidências comprobatórias incluem: (1) sete sinais (2.1-11; 4.46-54; 5.2-18; 6.1-15; 6.16-21; 9.1-41; 11.1-46) e sete sermões (3.1-21; 4.4-42; 5.19-47; 6.22-59; 7.37-44; 8.12-30; 10.1-21), pelos quais Jesus revelou claramente sua verdadeira identidade; (2) sete declarações “Eu sou” (6.35; 8.12; 10.7; 10.11; 11.25; 14.6; 15.1) mediante as quais Jesus revelou figuradamente aquilo que Ele é como redentor da raça humana; e (3) a ressurreição corpórea de Jesus como o sinal supremo e a prova máxima de que Ele é o “Cristo, o Filho de Deus” (20.31).
João contém duas divisões principais. (1) Os caps. 1—12 tratam da encarnação e do ministério público de Jesus. Apesar dos sete sinais convincentes de Jesus, dos seus sete grandiosos sermões e das suas sete majestosas declarações “Eu sou”, os judeus o rejeitaram como seu Messias. (2) Uma vez rejeitado pelo Israel do antigo pacto, Jesus passou (13–21) a considerar seus discípulos como o núcleo do novo concerto (i.e., a igreja que Ele fundou). Estes capítulos incluem a última ceia de Jesus (13), seus últimos sermões (14–16) e sua oração final com seus discípulos (17). O novo concerto se iniciou e se estabeleceu pela sua morte (18,19) e ressurreição (20,21).

Características Especiais

Oito características ou ênfases principais destacam o Evangelho segundo João. (1) Jesus como “o Filho de Deus”. Do prólogo do Evangelho, com sua sublime declaração: “vimos a sua glória” (1.14), até à sua conclusão na confissão de Tomé: “Senhor meu, e Deus meu!” (20.28), Jesus é Deus, o Filho encarnado. (2) A palavra “crer” ocorre 98 vezes, equivalente a receber a Cristo (1.12). Ao mesmo tempo, esse “crer” requer do crente uma total dedicação a Ele, e não apenas uma atitude mental. (3) “Vida eterna” em João é um conceito-chave, referindo-se não tanto a uma existência sem fim, mas à nova qualidade de vida que provém da nossa união com Cristo, a qual resulta tanto na libertação da escravidão do pecado e dos demônios, como em nosso crescimento contínuo no conhecimento de Deus e na comunhão com Ele. (4) Encontro de pessoas com Jesus. Temos neste Evangelho 27 desses encontros individuais assinalados. (5) O ministério do Espírito Santo, pelo qual Ele capacita o crente, comunicando-lhe continuamente a vida e o poder de Jesus após sua morte e ressurreição. (6) A “verdade”. Jesus é a verdade; o Espírito Santo é o Espírito da verdade, e a Palavra de Deus é a verdade. A verdade liberta (8.32); purifica (15.3). Ela é a antítese da natureza e atividade de Satanás (8.44-47, 51). (7) A importância do número sete neste Evangelho: sete sinais, sete sermões e sete declarações “Eu sou” dão testemunho de quem Jesus é (cf. a proeminência do número “sete” no livro de Apocalipse, do mesmo autor). (8) O emprego doutras palavras de destaque como: “luz”, “palavra”, “carne”, “amor”, “testemunho”, “conhecer”, “trevas” e “mundo”.

ATOS

AUTOR E PROPóSITO FINAL DO LIVRO A única obra que em todo o Novo Testamento se apresenta como continuação de outra é Atos dos Apóstolos (At). O autor, identificado tradicionalmente com Lucas (ver a Introdução a esse Evangelho), não quis dar por concluído no seu primeiro livro o relato “dos fatos que entre nós se realizaram” (Lc 1.1), mas, no seu segundo volume, recompilou a informação que teve ao seu alcance sobre os inícios da propagação do Cristianismo. Praticamente, Atos começa no ponto em que termina o terceiro Evangelho. Depois de uma introdução temática (1.1-3), que inclui a dedicatória a Teófilo (cf. Lc 1.3), o autor situa a narração no cenário de Betânia (Lc 24.50), onde à vista dos seus discípulos “foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos” (At 1.9).  CONTEúDO O acontecimento da ascensão aparece marcado para Lucas pela afirmação de Jesus “e sereis minhas testemunhas” (1.8). Sob o signo dessas palavras irá desenrolar-se a história inteira da Igreja nascente. A ascensão assinala o começo da atividade do Espírito Santo na Igreja, a qual é edificada sobre o fundamento da fé em Cristo e guiada adiante até a sua plenitude gloriosa de novo povo de Deus. O título Atos dos Apóstolos, que não foi posto no texto pelo seu próprio autor, mas pela Igreja do séc. II, não corresponde em todos os seus aspectos ao conteúdo da narração. Com efeito, o livro só ocasionalmente ocupa-se com o grupo dos Doze (incluído já Matias, de acordo com 1.26). A sua atenção não se dirige aos apóstolos em geral, senão em particular a determinados personagens, especialmente ao apóstolo Pedro e, sobretudo, a Paulo. Os trabalhos e discursos de Pedro e de Paulo são os principais centros de interesse de Lucas. O seu propósito é documentar os primeiros passos da difusão do evangelho de Jesus Cristo e o modo pelo qual o Espírito de Deus dava impulso naquele tempo ao crescimento da Igreja “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (1.8). Jerusalém é o lugar onde começa a história da atividade apostólica. Ali é onde se congrega e organiza a Igreja-mãe; ali se dão as primeiras manifestações do Espírito Santo; ali morre Estêvão, primeiro mártir da fé cristã; ali se escutam as primeiras mensagens evangélicas, e dali partem os primeiros enviados a anunciar fora dos limites palestinos a mensagem da salvação. A esses acontecimentos e ao desenvolvimento da comunidade de Jerusalém aparece estreitamente vinculada a pessoa de Pedro. No entanto, mais interessado ainda se mostra Lucas na figura de Paulo, o missionário, o homem que foi capaz de renunciar aos seus antigos esquemas mentais e religiosos para, de todo o coração, proclamar a Jesus Cristo diante de quantos quiseram escutá-lo (At 13.46; ver Rm 1.16; 1Co 9.20; Gl 2.7-10). A fé e a vitalidade de Paulo representam para Lucas a energia interna do Evangelho, que em breve e de forma irresistível haveria de alcançar o coração do Império Romano. A chegada de Paulo a Roma (28.11-31) põe ponto final a Atos dos Apóstolos, um drama velozmente desenrolado que partiu com ímpeto de Jerusalém poucos anos antes.  DIVISãO DO LIVRO O conteúdo do livro admite diversas análises, baseadas nos movimentos dos seus personagens mais importantes. A partir dessa perspectiva histórico-geográfica pode-se dividir o relato em três etapas diferentes: Primeira etapa: Jerusalém (2.1—8.3). Depois da ressurreição e da ascensão de Jesus ao céu (1.4-11), Jerusalém é cenário da formação do núcleo cristão mais antigo da história (1.12-26). Ali veio sobre os discípulos o Espírito Santo no dia de Pentecostes (2.4), e ali se deram os primeiros passos para a organização da Igreja (2.41—8.3). Segunda etapa: Judéia e Samaria (8.4—9.43). A perseguição contra os cristãos desencadeada após o martírio de Estêvão (6.9—7.60) obrigou muitos deles a saírem de Jerusalém e a se dispersarem “pelas regiões da Judéia e Samaria” (8.1). Esse fato veio a favorecer a propagação do evangelho, que já por aquele tempo havia alcançado diversos pontos da Síria e Palestina (4.4-6,25-26; 9.19,30-32,35-36,38,42-43). Terceira etapa: “até aos confins da terra” (10.1—28.31). (a) Deus, no caminho de Damasco, havia chamado Saulo de Tarso (7.58; 8.1,3; 9.1-30; 22.6-16; 26.12-18), para fazer dele “um instrumento escolhido para levar” o nome de Jesus aos gentios (9.15). Por outro lado, os crentes “que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão se espalharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia” (11.19), e desse modo abriram-se as portas ao evangelho em lugares até então totalmente pagãos. (b) Paulo empreende a sua atividade missionária. No transcurso de três viagens, percorre territórios do sul e oeste da Ásia Menor, penetra na Europa pela Macedônia e chega até a Acaia (13.1—14.28; 15.36—18.22; 18.23—20.38). A sua passagem está marcada pelo nascimento de novas igrejas, de que ele é, primeiro, fundador, e depois, mentor e conselheiro e com as quais mantém um cordial relacionamento, seja em pessoa ou por escrito. (c) Ao término do seu terceiro percurso apostólico, regressa a Jerusalém (21.1-15), em cujo Templo é preso (21.27-36). Os últimos caps. de Atos descrevem com especial detalhe os incidentes da viagem de Paulo a Roma, aonde o conduzem para ser julgado perante o tribunal imperial, a que ele havia apelado fazendo uso do direito que lhe outorgava a cidadania romana (22.25-29; 23.27; 25.10-12). O livro conclui com a chegada do apóstolo a Roma e o início da sua atividade naquela cidade (28.14-31). O autor de Atos manifesta-se em ocasiões como testemunha presencial do que está relatando. A narração utiliza então a primeira pessoa do plural: “nós” (16.10-17; 20.5—21.18; 27.1—28.16), de modo que o escritor inclui-se entre as pessoas que acompanham o apóstolo no seu trabalho.  ESTILO LITERáRIO O estilo de Atos é elegante e rico em vocabulário. Lucas possui um notável domínio da gramática e dos recursos lingüísticos do grego de seu tempo (koiné) e, inclusive, do clássico (ático). Talvez o conjunto da sua obra seja representativo dos primeiros esforços realizados para apresentar a fé cristã aos níveis mais cultos da sociedade romana.  LUGAR E DATA DA COMPOSIçãO Não existem dados que permitam precisar a data nem o lugar da composição deste livro. Muitos pensam que foi publicado uns vinte e cinco ou trinta anos depois da morte de Paulo, aproximadamente durante a década dos anos oitenta.

Esboço

Introdução (1.1-11)
I.O Derramamento do Espírito Santo (1.12 — 2.41)
A.  Preparação para a Promessa (1.12-26)
B.O Dia do Pentecoste (2.1-41)
II. Os Primeiros Dias da Igreja em Jerusalém (2.42—8.1a)
A.Características da Igreja Apostólica em Seguida ao Derramamento do Espírito (2.42-47)
B.Um Grande Milagre e Seus Efeitos (3.1—4.31)
C.A Comunidade de Bens dos Primeiros Cristãos (4.32—5.11)
D. Mais Curas e a Resistência da Religião Oficial (5.12-42)
E. A Escolha de Sete Diáconos (6.1-7)
F.Estêvão: O Primeiro Mártir do Cristianismo (6.8—8.1a)
III.A Perseguição Leva à Expansão (8.1b—9.31)
A.Os Crentes Dispersos na Judéia e Samaria (8.1b-4)
B. Filipe: O Ministério de um Evangelista (8.5-40)
C. Saulo de Tarso: A Conversão de um Perseguidor (9.1-31)
IV. O Cristianismo Propaga-se entre os Gentios (9.32—12.25)
A. O Ministério de Pedro em Lida e em Jope (9.32-43)
B. A Missão de Pedro aos Gentios em Cesaréia (10.1-48)
C. O Informe de Pedro à Igreja de Jerusalém e a Aprovação da Sua Decisão (11.1-18)
D. Antioquia: A Primeira Igreja Gentia (11.19-30)
E. Perseguição sob Herodes Agripa I (12.1-23)
F. Resumo do Crescimento da Igreja (12.24,25)
V. Primeira Viagem Missionária de Paulo (13.1—14.28)
A. Paulo e Barnabé Comissionados pela Igreja Local de Antioquia (13.1-3)
B. Início da Evangelização da Província da Ásia (13.4—14.28)
VI. O Concílio de Jerusalém (15.1-35)
VII. Segunda Viagem Missionária de Paulo (15.36—18.22)
A. Divergência entre Paulo e Barnabé (15.36-40)
B. Visita às Igrejas Fundadas (15.41—16.5)
C. Novas Regiões Evangelizadas na Província da Ásia (16.6—18.21)
D. Regresso à Antioquia da Síria (18.22)
VIII. Terceira Viagem Missionária de Paulo (18.23—21.16)
A. A Caminho de Éfeso (18.23)
          Parêntese: O Ministério de Apolo (18.24-28)
B. Um Prolongado Ministério em Éfeso (19.1-41)
C. Viagem à Macedônia, Grécia e Volta à Macedônia (20.1-5)
D. Regresso a Jerusalém (20.6—21.16)
IX.     A Prisão de Paulo e Seu Ministério Enquanto Preso (21.17—28.31)
A.Em Jerusalém (21.17—23.35)
B.Em Cesaréia (24.1—26.32)
C. A Caminho de Roma (27.1—28.15)
D.Em Roma (28.16-31)



Autor:Lucas
Tema:A Propagação Triunfal do Evangelho pelo Poder do Espírito Santo
Data:Cerca de 63 d.C.

 Considerações Preliminares
O livro de Atos, e de igual modo o Evangelho segundo Lucas, é endereçado a um homem chamado “Teófilo” (1.1). Embora nenhum dos dois livros identifique nominalmente o autor, o testemunho unânime do cristianismo primitivo e a evidência interna confirmatória dos dois livros denotam que ambos foram escritos por Lucas, “o médico amado” (Cl 4.14).O Espírito Santo inspirou Lucas a escrever a Teófilo a fim de suprir na igreja a necessidade de um relato completo dos primórdios do cristianismo. (1) “O primeiro tratado” foi seu Evangelho a respeito da vida de Jesus, e (2) o segundo foi seu relato, em Atos, sobre o derramamento do Espírito em Jerusalém e sobre o crescimento da igreja primitiva. Torna-se claro que Lucas era um escritor habilidoso, um historiador consciente e um teólogo inspirado.
Atos abrange, de modo seletivo, os primeiros trinta anos da história da igreja. Como historiador eclesiástico, Lucas descreve, em Atos, a propagação do evangelho, partindo de Jerusalém até Roma. Ele menciona nada menos que 32 países, 54 cidades, 9 ilhas do Mediterrâneo, 95 diferentes pessoas e uma variedade de membros e funcionários do governo com seus títulos precisos. A arqueologia continua a confirmar a admirável exatidão de Lucas em todos os seus pormenores. Como teólogo, Lucas descreve com habilidade a 
relevância de várias experiências e eventos dos primeiros anos da igreja.Na sua fase inicial, as Escrituras do NT consistiam em duas coletâneas: (1) os quatro Evangelhos, e (2) as Epístolas de Paulo. Atos desempenhou um papel substancial como elo de ligação entre as duas coletâneas, e faz jus à posição que ocupa no cânon. Nos caps. 13—28, temos o acervo histórico necessário para bem compreendermos o ministério e as cartas de Paulo. O pronome “nós”, empregado por Lucas através de Atos (16.10-17; 20.5—21.18; 27.1—28.16), aponta-o como estando presente nas viagens de Paulo.

Propósito
Lucas tem pelo menos dois propósitos ao narrar os começos da igreja. (1) Demonstra que o evangelho avançou triunfalmente das fronteiras estreitas do judaísmo para o mundo gentio, apesar da oposição e perseguição. (2) Revela a missão do Espírito Santo na vida e no papel da igreja e enfatiza o batismo no Espírito Santo como a provisão de Deus para capacitar a igreja a proclamar o evangelho e a dar continuidade ao ministério de Jesus. Lucas registra três vezes, expressamente, o fato de o batismo no Espírito Santo ser acompanhado de enunciação em outras línguas (2.1-4.; 10.44-47; 19.1-6). O contexto destas passagens mostra que isto era normal no princípio da igreja, e que é o padrão permanente de Deus para ela.

Visão Panorâmica
Enquanto o Evangelho segundo Lucas relata “tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar” (1.1), Atos descreve o que Jesus continuou a fazer e a ensinar depois de sua ascensão, mediante o poder do Espírito Santo, operando em, e através dos seus discípulos e da igreja primitiva. Ao ascender ao céu (1.9-11), a última ordem de Jesus aos discípulos foi para que permanecessem em Jerusalém até que fossem batizados no Espírito Santo (1.4,5). O versículo-chave de Atos (1.8) contém um resumo teológico e geográfico do livro: 
Jesus promete aos discípulos que receberão poder quando o Espírito Santo vier sobre eles; poder para serem suas testemunhas (1) em Jerusalém (1—7), (2) em toda a Judéia e Samaria (8—12) e (3) até aos confins da terra (13—28).Nos caps. 1—12, o centro principal irradiador da igreja é Jerusalém. Aqui, Pedro é o mais destacado instrumento usado por Deus para pregar o evangelho. Nos caps. 13—28, o centro principal de irradiação passou a ser Antioquia da Síria, onde o instrumento de maior realce nas mãos de Deus foi Paulo para levar o evangelho aos gentios. O livro de Atos termina de modo repentino com Paulo em Roma aguardando julgamento perante César. Mesmo com o resultado do referido julgamento ainda pendente, o livro termina de modo triunfante, estando Paulo prisioneiro, porém cheio de ânimo e sem impedimento para pregar e ensinar acerca do reino de Deus e do Senhor Jesus (28.31). 

Características Especiais
Nove principais destaques assinalam o livro de Atos. (1) A igreja. Atos revela a origem do poder da igreja e a verdadeira natureza da sua missão, juntamente com os princípios que devem norteá-la em todas as gerações. (2) O Espírito Santo. A terceira pessoa da Trindade é mencionada cinqüenta vezes; o batismo no Espírito Santo e o seu ministério outorgam poder (1.8), ousadia (4.31), santo temor a Deus (5.3,5,11), sabedoria (6.3,10), direção (16.6-10), e dons espirituais (19.6). (3) Mensagens da igreja primitiva. Lucas relata com habilidade os ensinos inspirados de Pedro, Estêvão, Paulo, Tiago, e outros, apresentando assim um quadro da igreja primitiva não encontrado noutro lugar do NT. (4) Oração. Os cristãos primitivos dedicavam-se às orações com regularidade e fervor, que, às vezes, duravam a noite inteira, produzindo resultados maravilhosos. (5) Sinais, maravilhas e milagres. Estas manifestações acompanhavam a proclamação do evangelho no poder do Espírito Santo. (6) Perseguição. A proclamação do evangelho com poder dava origem à oposição religiosa e/ou secular. (7) A ordem judaica/gentia. Do começo ao fim de Atos, o evangelho alcança primeiro os judeus e, depois, os gentios. (8) As mulheres. Há menção especial às mulheres dedicadas à obra contínua da igreja. (9) Triunfo. Barreira alguma nacional, religiosa, cultural, ou racial, nem oposição ou perseguição puderam impedir o avanço do evangelho.

Princípio Hermenêutico
Há quem considere o conteúdo do livro de Atos como se pertencesse a uma outra era bíblica e não como o padrão divino para a igreja e seu testemunho durante todo o período que o NT chama de “últimos dias” (cf. 2.17 nota). O livro de Atos não é simplesmente um compêndio de história da igreja primitiva; é o padrão perene para a vida cristã e para qualquer congregação cheia do Espírito Santo.Os crentes devem desejar, buscar e esperar, como norma para a igreja atual, todos os fatos vistos no ministério e na experiência da igreja do NT (exceto a redação de novos livros para o NT). Esses fatos são evidentes quando a igreja vive na plenitude do poder do Espírito Santo. Nada, em Atos e no restante do NT, indica que os sinais, maravilhas, milagres, dons espirituais ou o padrão apostólico para a vida e o ministério da igreja cessariam, repentina ou de uma vez, no fim da era apostólica.



Considerações Preliminares
O livro de Atos, e de igual modo o Evangelho segundo Lucas, é endereçado a um homem chamado “Teófilo” (1.1). Embora nenhum dos dois livros identifique nominalmente o autor, o testemunho unânime do cristianismo primitivo e a evidência interna confirmatória dos dois livros denotam que ambos foram escritos por Lucas, “o médico amado” (Cl 4.14).O Espírito Santo inspirou Lucas a escrever a Teófilo a fim de suprir na igreja a necessidade de um relato completo dos primórdios do cristianismo. (1) “O primeiro tratado” foi seu Evangelho a respeito da vida de Jesus, e (2) o segundo foi seu relato, em Atos, sobre o derramamento do Espírito em Jerusalém e sobre o crescimento da igreja primitiva. Torna-se claro que Lucas era um escritor habilidoso, um historiador consciente e um teólogo inspirado.Atos abrange, de modo seletivo, os primeiros trinta anos da história da igreja. Como historiador eclesiástico, Lucas descreve, em Atos, a propagação do evangelho, partindo de Jerusalém até Roma. Ele menciona nada menos que 32 países, 54 cidades, 9 ilhas do Mediterrâneo, 95 diferentes pessoas e uma variedade de membros e funcionários do governo com seus títulos precisos. A arqueologia continua a confirmar a admirável exatidão de Lucas em todos os seus pormenores. Como teólogo, Lucas descreve com habilidade a relevância de várias experiências e eventos dos primeiros anos da igreja.
Na sua fase inicial, as Escrituras do NT consistiam em duas coletâneas: (1) os quatro Evangelhos, e (2) as Epístolas de Paulo. Atos desempenhou um papel substancial como elo de ligação entre as duas coletâneas, e faz jus à posição que ocupa no cânon. Nos caps. 13—28, temos o acervo histórico necessário para bem compreendermos o ministério e as cartas de Paulo. O pronome “nós”, empregado por Lucas através de Atos (16.10-17; 20.5—21.18; 27.1—28.16), aponta-o como estando presente nas viagens de Paulo.

Propósito
Lucas tem pelo menos dois propósitos ao narrar os começos da igreja. (1) Demonstra que o evangelho avançou triunfalmente das fronteiras estreitas do judaísmo para o mundo gentio, apesar da oposição e perseguição. (2) Revela a missão do Espírito Santo na vida e no papel da igreja e enfatiza o batismo no Espírito Santo como a provisão de Deus para capacitar a igreja a proclamar o evangelho e a dar continuidade ao ministério de Jesus. Lucas registra três vezes, expressamente, o fato de o batismo no Espírito Santo ser acompanhado de enunciação em outras línguas (2.1-4.; 10.44-47; 19.1-6). O contexto destas passagens mostra que isto era normal no princípio da igreja, e que é o padrão permanente de Deus para ela.

Visão Panorâmica
Enquanto o Evangelho segundo Lucas relata “tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar” (1.1), Atos descreve o que Jesus continuou a fazer e a ensinar depois de sua ascensão, mediante o poder do Espírito Santo, operando em, e através dos seus discípulos e da igreja primitiva. Ao ascender ao céu (1.9-11), a última ordem de Jesus aos discípulos foi para que permanecessem em Jerusalém até que fossem batizados no Espírito Santo (1.4,5). O versículo-chave de Atos (1.8) contém um resumo teológico e geográfico do livro: Jesus promete aos discípulos que receberão poder quando o Espírito Santo vier sobre eles; poder para serem suas testemunhas (1) em Jerusalém (1—7), (2) em toda a Judéia e Samaria (8—12) e (3) até aos confins da terra (13—28).Nos caps. 1—12, o centro principal irradiador da igreja é Jerusalém. Aqui, Pedro é o mais destacado instrumento usado por Deus para pregar o evangelho. Nos caps. 13—28, o centro principal de irradiação passou a ser Antioquia da Síria, onde o instrumento de maior realce nas mãos de Deus foi Paulo para levar o evangelho aos gentios. O livro de Atos termina de modo repentino com Paulo em Roma aguardando julgamento perante César. Mesmo com o resultado do referido julgamento ainda pendente, o livro termina de modo triunfante, estando Paulo prisioneiro, porém cheio de ânimo e sem impedimento para pregar e ensinar acerca do reino de Deus e do Senhor Jesus (28.31). 

Características Especiais
Nove principais destaques assinalam o livro de Atos. (1) A igreja. Atos revela a origem do poder da igreja e a verdadeira natureza da sua missão, juntamente com os princípios que devem norteá-la em todas as gerações. (2) O Espírito Santo. A terceira pessoa da Trindade é mencionada cinqüenta vezes; o batismo no Espírito Santo e o seu ministério outorgam poder (1.8), ousadia (4.31), santo temor a Deus (5.3,5,11), sabedoria (6.3,10), direção (16.6-10), e dons espirituais (19.6). (3) Mensagens da igreja primitiva. Lucas relata com habilidade os ensinos inspirados de Pedro, Estêvão, Paulo, Tiago, e outros, apresentando assim um quadro da igreja primitiva não encontrado noutro lugar do NT. (4) Oração. Os cristãos primitivos dedicavam-se às orações com regularidade e fervor, que, às vezes, duravam a noite inteira, produzindo resultados maravilhosos. (5) Sinais, maravilhas e milagres. Estas manifestações acompanhavam a proclamação do evangelho no poder do Espírito Santo. (6) Perseguição. A proclamação do evangelho com poder dava origem à oposição religiosa e/ou secular. (7) A ordem judaica/gentia. Do começo ao fim de Atos, o evangelho alcança primeiro os judeus e, depois, os gentios. (8) As mulheres. Há menção especial às mulheres dedicadas à obra contínua da igreja. (9) Triunfo. Barreira alguma nacional, religiosa, cultural, ou racial, nem oposição ou perseguição puderam impedir o avanço do evangelho.

Princípio Hermenêutico
Há quem considere o conteúdo do livro de Atos como se pertencesse a uma outra era bíblica e não como o padrão divino para a igreja e seu testemunho durante todo o período que o NT chama de “últimos dias” (cf. 2.17 nota). O livro de Atos não é simplesmente um compêndio de história da igreja primitiva; é o padrão perene para a vida cristã e para qualquer congregação cheia do Espírito Santo.

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